por Tiago Barão em 10/04/2008 as 12:17

Deus ex Machina
Deus ex Machina

Todo roteiro, seja jogos, filmes, peças de teatro, começam a partir de uma base. Essa base pode ser um conto, um livro, um filme, um jogo e quase qualquer coisa que existe no mundo.

Há muito tempo, no início da CubaGames, eu escrevi um conto para basear o roteiro de um jogo. Mas o jogo não foi para frente, apareceram outras prioridades, etc. E como hoje está difícil tirar um post original da cabeça, vou colocar o conto aqui para que o pessoal dê uma lida e quem sabe dê a sua opinião. Esse conto nunca foi publicado fora da CubaGames, então é exclusividade. Leiam e divirtam-se!

Como eu odeio esse alojamento. Não consigo nem dormir o pouco tempo que o patrão dá de descanso para nós. Crianças chorando, casais brigando e fazendo mais crianças, cheiro de merda escorrendo pelo ar e o cheiro da tinta do tecido que não sai mais do meu nariz. Realmente eu odeio esse lugar. Daqui a pouco o apito vai tocar e vou ter que levantar da minha cama, que mais parece o chão de tão gelada, e ir para a fábrica trabalhar até a noite mexendo sem parar o caldeirão das tintas. O apito está tocando. Esta é a segunda noite que eu não durmo.

Vou acabar morrendo assim. Trabalho na fábrica há tanto tempo que eu nem lembro quando comecei. Só lembro que quando eu era muito pequeno eu já ajudava a minha mãe na confecção do tecido. Desde que as máquinas apareceram as coisas só pioraram. A tal de “Modernidade e Tecnologia para todos” só serve para quem tem o dinheiro para comprar os Zeppellins e as armas que atiram sem parar. Os que não têm como comprar a tecnologia vivem como eu, ou seja, passam a vida trabalhando nas fábricas, disputando lugar com as máquinas a vapor que nunca param de funcionar e não precisam de descanso. Não temos como ser tão competentes e trabalhadores como elas, mas o nosso patrão não quer saber disso, ele só quer aumentar a quantidade de peças de roupas que saem da fábrica.

O alojamento fica bem próximo a fábrica. Temos que andar só alguns passos na neve que é permanente nessa cidade. Trabalhamos em uma fábrica de roupas, mas não usamos roupas novas. Nós trabalhamos por roupas que as máquinas (ou nós) fazem com defeitos e pela comida que entregam uma vez por dia para nós na hora do intervalo entre os turnos. Só as crianças que trabalham recebem comida. As que não trabalham são alimentadas com a sobra da comida dos pais.

O Apito tocou. Tenho que levantar. Tenho mas não quero. Mas tenho. Que ódio desse alojamento. Vou andando até a fábrica. Pelo menos as roupas e as botas que me dão são quentes o bastante para agüentar o frio que está fazendo. Devemos estar no inverno, mas não posso dar certeza. Hoje em dia ninguém mais sabe as estações. Está sempre frio aqui.

Antigamente que era bom. A minha vó me contava as histórias de como era lá no campo. Eles tinham comida para comer pela manhã, no meio do dia e antes de dormir, fazia calor em certas épocas do ano, tinham festivais, tinham a mágica que vinha da floresta, encontravam-se com os animais falantes e com os homens-bode. Era tudo muito alegre, tudo muito bom. Nada de fábricas e pouca comida. Todo mundo comia, todo mundo era igual, menos os Magos. Eles tinham o poder da mágica.

Cheguei à fábrica, acho melhor para de ficar pensando e ir trabalhar. “Jonh Telman por favor compareça a área de descanso”. Estão me chamando. Será que vou ser mandado embora? Só falta essa para acabar com a minha vida de uma vez. Se eu não puder mais trabalhar aqui não vou mais poder morar no alojamento. Vou ter que morar nas ruas. Isso sim que vai me matar de vez. Chegando à fedida sala de descanso eu encontro duas pessoas vestidas com roupas caras e brancas, mais brancas que eu considerava que existiam. “Não está contente em trabalhar conosco?”. “Quer sair? Quer encontrar a sua
‘mágica’ novamente?”. “Não, por favor, eu quero continuar aqui”. “Isso não vai acontecer”, a mulher fala “O Controle não quer ver você triste, ele vai arranjar uma boa ocupação para você”.

E eles me mostraram as maravilhas que a tecnologia poderia fazer.

A partir daí dá para tentar começar a montar um roteiro de um jogo de Ação, RPG, Tiro, Puzzle, etc. Fica a escolha do cliente…

Se alguém quiser fazer um jogo sobre ele (e ganhar muito dinheiro) pode fazer. Liberado para uso, modificação e cópia. Aproveitem!

PS.: Se alguém continuar o conto eu posto ele aqui.

Categorias: CubaGames, Desenvolvimento, Filosofia |


7 Comentários

  1. Nossa, bem interessante esse conto!
    Até pensei em continuar, mas ando tão cheia de idéias não-terminadas na minha cabeça que eu acho melhor eu me controlar. xD


    Comentário de MiWi - 10/04/2008 às 12:27 pm #
  2. Eu “quase” tinha esquecido deste texto do Tiago. Realmente ficou bem legal!

    Miwi: encher a cabeça de idéias inacabadas não é privilégio seu :D


    Comentário de Romulo De Lazzari - 10/04/2008 às 1:24 pm #
  3. Pois é… você também às vezes se sente afogando em idéias?
    Quer ver agora que eu comecei a fazer meu jogo… ele já mudou de “cara” SÓ umas cinco vezes… e não foram coisas pequenas… :p


    Comentário de MiWi - 10/04/2008 às 1:49 pm #
  4. Muito bom o texto. E ele ainda termina em uma parte que eu posso fazer a continuação de milhares de jeitos possivel.
    Acho que até vou usar heim, só vai faltar ganhar mto dinheiro… eheheh


    Comentário de Sharbel - 10/04/2008 às 5:00 pm #
  5. ler o roteiro de um filme pode ajudar a fazer um roteiro?

    eu tenho o livro do roteiro ilustrado do filme O Código da Vinci, se o Romulo kiser emprestado, está na minha casa pegando poeira


    Comentário de Anderson - 11/04/2008 às 12:04 pm #
  6. Eu costumo escrever roteiros, já pensando em futuros jogos.
    Acredito que o Brasil esteja crescendo no ramo de criação de jogos, e isso me deixa empolgado, visto que gostaria muito de trabalhar com isso.
    Quanto ao seu conto….achei ele interessante, da pra fazer uma história bem bacana, com uma mistura bem legal…RPG com muita ação, ficção com realiadade..eu me interesso muito por jogos de RPG, pois são muito bem bolados e são muito complexos, mas o gênero que mais me atrai é o survival horror.


    Comentário de Rodrigo - 20/04/2008 às 12:17 pm #
  7. [...] ao “sucesso” do ultimo post de “contos-roteiros”, posto aqui mais um para que o pessoal opine e [...]


    Comentário de CubaGames » Roteiro de Jogos: Uma base - II - 24/04/2008 às 8:23 pm #

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